Fortes emoções da chegada

Eu estava a caminho daquela que seria a minha cidade pelos próximos dois meses. O serviço de transporte rodoviário na Turquia é excelente se comparado ao do Brasil. Apesar de me deparar com a rodoviária enorme e sem sinalização em inglês de Izmir, e com o fato de que quase ninguém neste país domina a língua inglesa, escolhi aletoriamente uma atendente de uma empresa de ônibus que pôde entender que eu queria ir a Denizli.

Percebi que meus cálculos estavam mais do que certos, já que a moeda local é apenas 20 centavos mais cara que a brasileira. Mas a sensação de conforto durou pouco, até perceber que eu estaria no último ônibus do dia e que só restavam 5 minutos para o embarque. Descobri que os turcos são extretamente pontuais e que eu não tinha condicionamento físico suficiente para arrastar minha mala de 32 quilos mais uma mochila de 5 sem chegar ao ônibus exausta.

Até recuperar o fôlego, fui complacentemente atendida pelo garçom do ônibus, que ajeitou minha mochila no bagajeiro interno, me ofereceu água e o lanche da noite, e ainda me orientou (por gestos) como usar o fone de ouvido e a internet wireless. Todos serviços inclusos nos custos da passagem. Nos transportes de massa, homens e mulheres não sentam-se lado a lado, a menos que seja um casal. Foi então que uma jovenzinha turca sentou-se ao meu lado, com muita maquiagem e perfume, ela foi escutando seu iPod até nosso destino final.

Observava tudo atentamente e comecei a sentir um misto de ansiedade e temor, porque chovia muito e o pouco que pude ver das cidades na estrada eram letreiros e placas indecifráveis. Mas, pelo menos, eu sabia que estava no caminho certo, segundo meu mapa.

Após 3 horas de viagem, desci em uma rodoviária bem pequena e escura. Fiquei parada uns 2 minutos na plataforma até identificar onde estava o banheiro, minha parada obrigatória após viagens. Dei graças a Deus por chegar viva e por ser capaz de ler os símbolos universais para serviços como restaurante e sanitário. Mas Deus deve ter percebido que seria só a primeira vez que seria citado aquela noite quando viu a minha cara ao me deparar com os "vasos sanitários".

Contei a até 3 e encarei a situação. Deixei minha mala enorme, minha mochila e o maldito berimbau que trouxe para presentear os futuros amigos turcos. Digo maldito porque quebrou no percurso aéreo e porque tornou-se meu maior empecilho na condução da bagagem. Me arrumei para seguir ao restaurante e em fração de segundos percebi que não estava com minha carteira. Fui tomada por um subto pânico. Senti meu corpo esfriar como se tivesse voltado ao pátio de desembarque sem roupas. Olhei para um cartaz no banheiro com o pensamento perdido e só consegui ler a palavra "burada". Que ironia, era a mesma expressão que meus amigos utilizavam quando a Buranelli faz alguma coisa errada.

Eu não sabia se tinha feito mesmo uma merda ou se tinha feito comigo, mas eu estava ali, em pé no banheiro, sem minha carteira (com TLs, dólares, cartões e documentos), sem meu laptop, com um celular fora de área e sem saber o endereço do escritório da Aiesec local (porque não tinha no site deles). Mas eu tinha 200 dólares, 1,50 TLs do troco da passagem no bolso e meu passaporte. Vou lá fora, compro outra passagem de volta para Izmir, onde tenho amigos brasileiros e tudo se resolve.

Mas o meu ônibus havia sido o último! Os celulares dos membros locais foram chamados do telefone do restaurante, mas ninguém atendeu. Me restou o Café Internet, onde o único ser vivo que falava inglês naquela rodoviária se compadeceu do meu desespero e me ofereceu o serviço gratutitamente até que eu achasse meus "amigos aiesecos", um celular local para continuar tentando chamá-los, além do meu primeiro gole de chá turco e água.

Foi o momento em que bati meu recorde de novos amigos no Facebook, porque além de contactar todos os membros do meu escritório em Salvador, mandei mensagens para quase todos os contatos que eu tinha do escritório em Denizli. Santa Aiesec Salvador! é nesses momentos que percebemos o quanto vale uma palavra de apoio, mesmo que vindas de uma janela de mensagens instantâneas, de alguém há mais de 10.000 quilômetros de distância.

À meia noite chegou meu príncipe encantado. Nem olhei direito o rosto dele. Só apertei sua mão e escutei dizer-me em bom e alto inglês: você é a Laise? me desculpe o atraso. Vamos, viemos te buscar. Algum problema?" Não... imagina... só estou esperando a mais de 4 horas neste lugar inóspito e sem a minha carteira... pensei quase chorando. Contei o que se passou e o príncipe foi até o guichê da empresa que me trouxe e conseguiu localizar a carteira. Ela havia resolvido passear até a cidade seguinte na poltrona nº 1, que tinha sido minha e voltaria no primeiro ônibus do dia seguinte.

2 comentários:

Elielson disse...
27 de abril de 2011 11:26

Fortes emoções.
Após você conseguir me fazer ficar completamente concentrado na leitura deste post, algo dificil ultimamente, fiquei com a sensação de que quando você publicar um livro terei que lê-lo.

Laise Buranelli disse...
9 de maio de 2011 23:23

Fiquei com a sensação de que devo escrever um livro! hehehe espero que curta o resto da história :)

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