O Brasil já não é de sossego

Enfim, foi-se a época em que nossas discussões e manifestações públicas (de massa) resumiam-se às questões delimitadamente amplas: o petróleo, o voto, o crime, a liberdade de expressão...

Graças aos adventos da tecnologia, da democracia e, ao meu ver, de amadurecimento social também, passamos ao estágio do particular, ainda que este toque aos milhões de particulares: aos que sofrem bulling, às mulheres violentadas, ao estado laico, aos evangélicos, aos gays...

E fora exatamente o recente confronto entre estes dois últimos públicos citados que me fez refletir mais profundamente sobre a nova "Era" de afirmação do brasileiro. Antes deste, o movimento pela saída do senador duplamente eleito Renan Calheiros da presidência do senado e da divisão dos royalties do petróleo produzido pelos estados unidos brasileiros já haviam esquentado o palco das reivindicações de cunho popular.

Compreendo que todo movimento seja legítimo, a partir do momento que a liberdade de um público infrinja a liberdade de outro. Mas duas liberdades, ainda que antagônicas merecem existir, ou não teremos garantido o direito amplo anteriormente conquistado: a liberdade; de pensamento, de sentimento, de crença, de ação, ou o que quer que seja.

Mas os movimentos que emergem têm buscado a aniquilação do direito, e porque não dizer de existência, da outra parte. E aí chegamos ao presente treino do equilíbrio. Se enxergávamos em preto e branco agora a sobrevivência depende de um espectro mais amplo e caleidoscópico.

Eu cresci me perguntando porque existia tanta guerra e confronto pelo mundo e agora percebo que o Brasil saiu da sua adolescência ingênua, em que somente assistia seus pais brigarem, para a fase adulta, pulsante por garantir direitos individuais e ter uma casa só sua, fase pela qual a maior parte do mundo já passou, diga-se de passagem, de forma nada exemplar. Muitos dos conflitos duraram e duram dezenas de anos, custaram vidas, sangue e suor até de quem não estava no pleito.

Meu medo agora é que o Brasil não use a perspicácia do seu povo para achar soluções de tolerância e justiça que não apaguem a voz do outro, seja o outro parte de maiorias ou minorias. Se na praxis adotada no país a maioria pode decidir um destino coletivo, não está a esta garantido o poder de esmagar as fontes de oposição. Em tempo, ser minoria não pode ser justificativa de ter privilégio, mas deve inspirar e fazer valer a igualdade de direitos.

Em um país que adotou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, existir estatutos complementares, como os da Criança e do Adolescente, assim como o do Idoso, ou mesmo ter que financiar secretarias específicas de Reparação Social, está atestado que a comunicação não se fez completa e que o conceito de igualdade de direitos e deveres está muito aquém do ideal da democracia. Eu sei... o país nasceu da desigualdade e não se apaga uma mácula dessas da noite para o dia, mas vamos completar, em 2013, 190 anos de independência torta.

Escrevo numa tentativa de organizar minhas ideias e clarificar o desenvolvimento das circunstâncias. Tendo certeza de que não vou me convencer se há certo e errado, porque as questões de direito não giram em torno dessa dicotomia, nem muito menos vou convencer alguém a respeito da minha conclusão.

As novelas ainda não acabaram.              

Mas não podemos, todos, brasileiros ou moradores do Brasil, nos afastarmos dos movimentos que nos circundam entendendo que não nos pertence, porque todo assunto brasileiro diz respeito às nossas vidas e somos responsáveis pelos meios e pelos finais da ordem e do progresso a que buscamos.

OPINE, MUDE DE IDEIA, CALE-SE, GRITE, QUANTAS VEZES FOR PRECISO. SÓ NÃO HÁ MAIS TEMPO PARA A INDIFERENÇA.

O GRITO MAIOR É PELA IGUALDADE E NÃO SÓ PELO MEU DIREITO DE SER DIFERENTE. CUIDADO AO JULGAR, E AO FAZÊ-LO, NÃO TOMAR A PARTE COMO O TODO!

MAIS CUIDADO AINDA COM A IMPRENSA E COM AS REDES SOCIAIS. A VOZ DO POVO NÃO É A DE DEUS... ELA ESTÁ NA NOSSA CONSCIÊNCIA.

A cidade que não dorme


As luzes estão sempre acesas, as mesas sempre postas, tudo sempre limpo, as portas sempre abertas, o telefone sempre atendido, a rua sempre livre, a segurança sempre presente, o sorriso sempre aberto. Tudo à nossa disposição, para que possamos aproveitar plenamente o momento especial.

Escolhemos a melhor roupa, preparamos o corpo e a mente para a passagem que fará dos vindouros momentos sempre mais positivos. Nos preparamos para sintonizar nossas energias às expectativas e despendemos grande parte delas para que cada registro fique perfeito.

Mas o nosso próprio esforço nunca será suficiente se a natureza não cooperar com cada momento. E nesta observação inclui-se a natureza humana.

Para que nossos olhos possam fechar em um sono leve depois da farra, no mínimo, outro par de olhos deve estar aberto para que na manhã seguinte a vida continue em ordem. Para cada multidão que grita eufórica a contagem regressiva, outra multidão acelera os afazeres para que aproveitemos a vida ao máximo.

A cidade é de pedra, não precisa dormir. Mas as mãos e pés que a conduzem precisam.

Se o Réveillon ou qualquer outro momento de reunião foi perfeito, lembremo-nos que enquanto apreciávamos as luzes, outros olhos prestavam atenção às nossas necessidades e outros braços não davam abraços, mas trabalhavam.

Para que o mundo siga com justiça e equilíbrio lembrarei de valorizar cada momento em que alguém abriu mão de compartilhar para servir, inclusive os meus próprios.

QUE 2013 TRAGA A TODOS IGUAIS MOMENTOS DE COMPARTILHAR E SERVIR!

Olimpíadas 2012... A gente se vê por aqui!

Por que eu consigo assistir aos 4 canais de transmissão dos Jogos Olímpicos, simultaneamente, por mais de 1 hora e não consigo ficar o mesmo tempo em um único?

Eu não tinha percebido, mas, numa análise mais apurada do hábito recentemente adquirido, constatei que ao ver os 4 canais, me desligo da narração. O que não parece ser possível quando a transmissão é exclusiva, ou seja, uma única competição, em um único quadrante.

Precisei mais um vez da tecnologia para "superar" o meu limite humano. Como não consigo acompanhar 4 narrativas, me adaptei para acompanhar 4 imagens; com isso, fixo minha atenção na ação, mais do que na descrição da ação.

Os números e símbolos na tela já me bastam para perceber quem está ganhando, quem está em vantagem, quem recebeu falta ou quem chegou às finais.

As Olimpíadas ganharam seu status assim: a superação do limite físico humano, pelo esporte. Para que isso aconteça, não é preciso que alguém  narre o que possivelmente se passa na cabeça de um atleta, muito menos que narre o óbvio. A ocasião nos permite prestar mais atenção ao outro e incrivelmente, compreendermos ou até nos adaptarmos às limitações a que muitos atletas passam para vencer. E ao final relembrar: são tão humanos quanto nós.

Posso estar sendo egoísta, na medida que excluo deficientes visuais quando dou ênfase às imagens. Mas a estes, uma adequada transmissão de rádio proporcionaria a inclusão.

Uma citação do histórico do atleta até acrescenta emoção às competições, mas mesmo a história mais longa, do atleta mais promissor não daria um texto de 2 min. Portanto, Galvão Bueno e queridos colegas, vocês são dispensáveis. Eu não preciso que vocês "traduzam" fatos em emoções porque em um evento cujo foco está na parte física, a pura imagem diz tudo. Será ela a ficar na minha memória daqui a 20 anos e não o que vocês possam ter dito.

Mas devo ser justa e admitir que vocês me ajudaram a descobrir porque sou apaixonada pelas Olimpíadas. Não é apenas porque seja ocasião de confraternização dos povos, rompimento de barreiras culturais (e preconceituosas) ou mesmo a sensação de saber que estou sintonizada com bilhões de pessoas espalhadas por um mundo desconhecido.


Mas porque as Olimpídas requerem dos atletas e dos espectadores atenção ao corpo e ao comportamento, mais do que ao que é dito. Então, reservemos os berros às vitórias e apreciemos a parte bela da natureza humana.

Hall da Fama

Se pego um táxi, divido minha visão da janela com o Alceu Valença, que aprecia a paisagem da Guanabara tanto quanto outro nordestino. Se saio às pressas do banheiro para não perder meu vôo, quase tropeço na pequena Sandy, que ajeita o novo penteado ao lado da fiel escudeira Noely. Mal posso apreciar meu almoço de domingo sem ter que aguardar o garçon trazer o meu pedido depois de atender à família do Jairzinho.

Cateano parecia estar tão impaciente quanto eu ao ver que as novidades da revista que líamos já havia terminado e o vôo de volta para Salvador contemplava um atraso de mais de uma hora. Mas ter que esperar a Giovanna Antonelli desfilar na minha frente pelos corredores do shopping para dar tempo dos paparazzi registrar o momento é menos suportável.

Disputar uma vaga no ocupadíssimo bairro de Ipanema com o casal Júlia Lemmertz e Alexandre Borges nem chega a ser um privilégio, afinal, a disputa pertence ao povo carioca. Mas dividir o calçadão da praia, diariamente, com a Luana Piovani ou com a Adriane Galisteu é sacanagem. Se eu fosse solteira, não ía desencalhar nunca fazendo este trajeto!

Um dia ainda descubro o que tanto Taís Araújo procurava nas vitrines do Shopping Leblon... em menos de duas semanas eu já tinha consumido em todos os restaurantes e memorizado todos os preços do negócio. Confesso que ri muito com o stand up comedy do Sérgio Malandro, me surpreendeu. Mas não menos do que saber que o Leonardo Bricio tem o mimo de se exercitar correndo nas encantadoras alamedas do Jardim Botânico.

Quando escolhi o aconchegante bairro de Botafogo para morar, não pensei que ía esperar o carro da Maria Betânia atravessar o estacionamento da Cobal do Humaitá para que eu pudesse caminhar até a minha mesa, muito menos que provaria uma Brahma Black conferindo a realidade chocante do genial ator Marcos Oliveira.

A famosidade passou a fazer parte da minha rotina, mas não precisei pagar o preço da fama. Meu registro desta temporada resume-se apenas ao esforço para deixar que eles saiam nas minhas fotos, ou melhor, sair fazendo graça no background das fotos deles. Afinal, são patrimônio da cidade, status para os nativos e exemplo aos muitos decidiram vir tentar a vida por aqui.

Tome um pouco de tempo

O tempo é um santo remédio. Não que ele faça milagres, porque milagres estão na categoria das coisas impossíveis. O tempo faz o inimaginável. E as coisas inimagináveis assim o são por uma deficiência humana de pôr em prática o máximo de sua criatividade, não porque Deus não queria e depois mudou de ideia.

Contudo, o mesmo elixir que faz tudo melhorar, também pode estragar tudo. O segredo está na dose. A única forma de burlar a regra do tempo é variar conforme sua intensidade. E ao que parece, somente o mel conseguiu se aproximar da "fórmula da eternidade". Pelo menos, até que alguém o meta sobre uma panqueca e acabe de vez com sua existência.

Quer uma comida com mais sabor, espere o tempero apurar; quer que ela estrague, espere mais do que devia para esfriar. Quer ver uma relação se fortalecer, espere algumas semanas partilhando interesses comuns; quer ver uma relação se destruir, espere algumas semanas de descaso. Quer ver um conhecimento se multiplicar, espere que as leituras e discussões se estendam; quer ver o conhecimento se esvaziar, espere até que todos se voltem apenas às suas verdades. O mesmo tempo que trás esperança,a leva embora. O mesmo tempo que sincroniza nossas vidas ao Universo, bagunça tudo em 1 segundo.

O tempo é uma criança esperta que brinca com as formiguinhas sobre a mesa, colocando o dedo em seu caminho até as tirarem de suas rotas. Mal sabe a formiguinha que pode caminhar facilmente sobre os dedos, incomodando a criança, mesmo correndo o risco de ser achatada entre dois dedões.

Vou brindar ao tempo na certeza de que a Evolução da Espécie, na forma prevista por Darwin, se manisfestará sobre o DNA humano e um dia seremos como mel. Mas até lá, o brinde deve ser feito com sucos antioxidantes de clorofila.

Como assim...especial?

Ao que parece, minha inspiração não foge à regra dos que costumam escrever como uma forma de catarse; aparece nos momentos de incômodo com alguma situação. Incômodo causado por sentimentos positivos ou negativos, que aparecem repentinamente, sem que sejam desejados ou que são cultivados durante anos até que chegam ao limite do clausuro suportável. Eu sou normal.

Mas porque algumas palavras, ou atitudes, frutos de reações não sobrehumanas ganham proporções globais e levam junto com sua publicidade a imagem do autor ao patamar de estrela? Então algum comentário de admirador diria: são palavras especiais, ou simplesmente, isso vem de uma pessoa especial.

Mas como assim... especial? se são todas efeito de aspectos comuns a qualquer espécime humano e podem ser fruto da mente de qualquer um? com a leve diferença de que foram bem colocados.

Eu me nego, por esta avaliação e por outras, aceitar que qualquer ser humano seja especial. Ao meu entender, ou somos todos especiais, ou ninguém o é. O número de empatias alcançado é que torna as ações corriqueiras em sensações especiais.

A propósito, a nomenclatura de ser "especial" tem ganhado emprego de formas tão não adequadas, que, além de perder seu sentido diferenciador, tem feito um desserviço a humanidade. Passamos a chamar as pessoas com algum tipo de deficiência de especiais e ao tempo que o fazemos, consideramos as demais, que possuem o mais valioso bem humano depois da própria vida (a saúde) de não especiais. Milhões de pessoas têm perfeita saúde física e mental, mas não por isso serão especiais. Certas pessoas precisam de cuidados especiais!

Passamos a chamar as pessoas que por algum motivo ganharam destaque na mídia pela simples beleza física de especiais e com isso, todo o resto da humanidade deformada não será mais especial. Passamos a chamar as pessoas que ganharam ou juntaram muito dinheiro de especiais, e logo então, consideramos cada pobre ou mediano não dignos de especialidade.

Passamos a admirar as pessoas que enfrentaram algum revés inimaginável em suas vidas e as temos como especiais, quase sempre como uma forma de guru, mas perdemos a capacidade de enxergar nossos próprios revezes e as infinitas oportunidades de superá-los. Se alguém for atingido ocasionalmente pela atenção coletiva se torna especial, pelo simples fato de o ter sido: ser um meme já pode ser considerado especial.

A denominação "especial" é uma instituição humana, claramente humana, porque se fosse divina, cada mensageiro divino (ou profeta, se preferir) teria se auto-denominado especial, ou mesmo o próprio Deus faria entender que assim funciona a raça humana, os especiais merecem tudo e aos que não são, resta a resiliência, ou ainda, o fardo.

Mas, ao meu ver, não foi isso que Ele deixou a entender, lembrando que a interpretação dos textos "sagrados" e da vida é livre!

A busca pelo ser "especial" é um tipo de combustível, de estímulo para o homem seguir em frente e também um referencial de sucesso: se me torno, de alguma forma especial (principalmente pelas formas já mencionadas) tive sucesso na vida e posso morrer com orgulho, ou melhor, posso deixar uma marca da minha trajetória que me torna "imortal", pela perpetuação da minha imagem.

Onde foram parar as formas particularmente honradas de se viver
? Terminam nos quase esquecidos contos da vovó ou numa lápide mal talhadaEntramos em um turbilhão tão insano pela busca do especial que quase todo esforço pelo sucesso transforma qualquer valor moral em mercadoria de prateleira. BBB ou ex-BBB é mais especial que uma pessoa que aparece no jornal do meio dia protestando pelos direitos coletivos. Ex-presidiário cantor é mais especial que um ativista ambiental, que por sua vez é mais especil que o jardineiro do meu condomínio. Ganhador do Prêmio Nobel de Física é mais especial que todo e qualquer professor de física do ensino médio que tenha ajudado 100 alunos por ano a passar no vestibular. Político é mais especial que a própria população, político-ex-esportista ou ex-artista é mais especial que um político de carreira; juíz é mais especial que a Lei; jornalista é mais importante que a notícia; médico é mais especial que enfermeiro; quem consegue falar é sempre mais especial do que quem consegue, de fato, resolver.

Pra que ser especial
? Não bastaria um cartão de namoro, ou uma mensagem fonada dos pais, ou scrap de um amigo, um torpedo de um irmão; as palmas na apresentação do colégio, a nota 10 na prova da universidade, o aperto de mão do seu chefe, um sorriso de alguém que reconheceu seu favorNão bastaria ser especial em algum momento sincero, para alguma pessoa que se considere importante na própria vida, para tornar o sentido da mesma mais digesto? Ou com isso buscamos só uma justificativa para o fracasso diante da constatação de que nem todo mundo pode ser especial?

Pretty good but not great

E assim se finda 2011. O ano já está acabando mas eu ainda não descobri o que o mesmo quis da minha pessoa.

Tempo passado, tempo cumprido. Sorri, chorei, questionei, aceitei, mudei, mudei novamente, mudei mais um pouquinho... e aqui estou. Pronta para que 2012 não me venha com essa baboseira de que o mundo vai acabar, porque se assim fosse, a humanidade sucumbiria sem nenhuma das respostas às grandes perguntas da vida. E eu sucumbiria extremamente irritada por isso.

Talvez 2012 me traga o verdadeiro sentido de 2011, ou mesmo o de 2009, 2008 e os demais anteriores, da minha história e por que não... da história da humanidade.

Deixando o shakespearismo de lado, eu posso sentir as promessas que o Ano Novo sempre representa. Posso sentir o peso mais leve do ano que está acabando. Como se finalmente eu tivesse achado a gaveta certa para as documentações correlatas. Enfim, arquivadas. Pedaços de um projeto que foi se desenrolando com e sem muitas variáveis previstas. E agora que estão em ordem cronológica e alfabética, anexados às respectivas imagens, fotos, sons, texturas e aromas, posso resgatá-los à medida que me fizerem falta, ou simplesmente aprisioná-los, quando me for conveniente.

Entre tantos desejos de realização para o ano que vem, um me fez perceber que devo ser mais firme quando decidir ser o que quero ser: mais pró-atividade social. Digamos que eu já domine a habilidade no trabalho, em casa, em família. O que não seria novidade para ambientes onde a cobrança é direta e explícita. Mas me falta saber agir no imediato quando alguma injustiça se faz em minha presença. Talvez eu já esteja em um nível bom, mas o excelente existe e eu com certeza não estou perto dele. Não falo de ações filantrópicas, mas de ações cidadãs.

Não quero trazer para casa as indignações das filas, dos atrasos, das desistências, das rejeições, dos preconceitos, dos enganos, das corrupções, e desabafar com o espelho do elevador social sobre o quanto o mundo está errado. Quero retocar meu batom comentando com a minha própria imagem sobre algum feito: e ache bom! ostentando um merecido auto-reconhecimento de alguém que não deixou passar em brancas nuvens as imperfeições humanas no convívio social. Nem mesmo as próprias.  

Doce Novembro

Novembro tem o leve encanto dos meses que terminam em "bro". Tem cheiro de protetor solar, cheiro de cabeça de bebê que acabou de sair do banho, cheiro de coisa nova.

Novembro tem jeito de planos novos, de orçamentos espalhados sobre a mesa e de enfeites de Natal. A ânsia deste mês me parece mais forte do que a do mês subsequente.

Novembro traz o sentimento de que o ano está terminando e que precisamos correr para não perder as oportunidades. Dezembro é o ano que já acabou, é tempo de deixar o Sol bater, sem muita relutância contra os efeitos que possa causar, sem o pique de querer ser o primeiro, até porque o que tinha que ser feito já deveria estar em processo.

A trilha sonora oficial para Novembro poderia ser Anunciação, de Alceu Valença.

Mas Novembro acabou e foi doce enquanto durou. Planeje logo suas férias para que o peso de um Dezembro sem feriados no meio da semana não te sufoque com as responsabilidades e rotinas que já nos são por demais presentes.  

Um lugar ao Sol

O que podemos fazer para conseguir um lugar ao Sol quando o céu está encoberto?

a) montamos nosso guarda-sol e cadeira assim mesmo, para garantir o lugar sentado 
b) fazemos promessa para Stº Pedro regular o brilho da imagem
c) passamos a ser adeptos do banho de Lua
d) lançamos a moda do branquinho desbotado
e) espalhamos um spam na rede sobre os malefícios do Sol
f) tornamos o Sol o inimigo público número 1
g) arrendamos o espaço que já conseguimos a alguém que tenha paciência para esperar
h) lançamos um livro com as memórias sobre os tempos ensolarados
i) dançamos a dança do Sol
j) procuramos um lugar nas clínicas de estética que forneçam raios equivalentes
k) passamos a usar muita maquiagem para que os outros pensem que o garantimos
l) todas as alternativas acima, o que vale é tentar
m) nenhuma das alternativas acima, você só consegue quando ele quer mesmo       

O mundo de batata

Eu adoro comer batatas. Fritas, cozidas, assadas, em purê... Mas antes de apreciar a iguaria é preciso, na maior parte das receitas, descascá-la. Certo.

O modo menos trabalhoso que encontrei para fazê-lo é escaldá-las e ainda em alta temperatura puxar a casca, como uma pele que se descama.

Eu sempre pensava neste processo antes de escolher o prato do dia e torcia para que na geladeira houvessem mais batatas grandes que pequenas. As maiores, se cortadas em pedaços, geram mais rodelas do que as menores, que por sua vez, são possíveis de serem partidas somente ao meio, gerando duas pontas. As pontas são mais complicadas. Possuem arestas, brotos e curvatura peculiares, de difícil manipulação.

O que ocorria como um hábito, passou a sofrer uma sutil mudança. Em lugar das rodelas, passei a preferir descascar as pontas. Através de uma técnica menos trabalhosa ainda. Com a ajuda de um pano de prato umedecido, puxo a casca das pontas de uma só vez, como que ao movimentar um pequeno cobertor. E desde então, torço pela frequência das batatas menores.

Mas o que aconteceu ainda não sei dizer. A nova técnica surgiu para que todas as batatas fossem descascadas com menos labor?; a frequência das batatas maiores realmente mudou?; o equilíbrio entre as frequências nunca mudou?; quanto mais prazer se tem ao objeto final, mais estratégias são articuladas pelo cérebro para alcançá-lo?; tudo é uma questão de costume?; quando somente você pode fazê-lo, encontrará sempre a melhor forma?; não houve alterações relativas ao processo, mas à percepção?; quando iniciado pela parte mais complicada o trabalho segue com menor pesar ?

Seja qual for a resposta, qualquer batata vale apena ser descascada; desde que não lhes queime as mãos.  

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